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Tão importante quanto doar é recomendar

Por Vanessa Prata , sócia-fundadora e codiretora-executiva da ponteAponte e integrante do Movimento por uma Cultura de Doação 



A confiança nas organizações da sociedade civil não anda muito bem, como demonstra o relatório recém-lançado “Retrato da Solidariedade”, conduzido pela Fundação José Luiz Egydio Setúbal , que buscou entender o comportamento solidário da população brasileira e suas motivações, métodos de doação e o perfil dos doadores. Com um total de 2.545 entrevistas realizadas em dezembro de 2023, a amostra foi desenhada para ser representativa e inclui análises específicas sobre doadores de alta renda e pessoas que doam regularmente para OSCs.


Segundo o estudo, em geral, as pessoas confiam menos nas OSCS do que nas igrejas, sendo que 23% indicam não confiar nada e 17% indicam confiar totalmente nas OSCs versus 18% que indicam não confiar nada e 26% que indicam confiar totalmente nas igrejas.


As OSCs também ficam atrás na captação de doações, sendo que 38% dos respondentes disseram ter pagado dízimo em 2023 e cerca de 65% dos entrevistados afirmaram ter dado esmolas a pedintes na rua, enquanto a doação de dinheiro para OSCs foi realizada por 28% dos entrevistados.


estímulo para doações veio, em grande parte, de redes de relacionamentos pessoais (54%) e, em 33% dos casos, de campanhas em redes sociais, com o Instagram sendo a plataforma mais influente.


A pesquisa também investigou as motivações para doação, com 39% dos doadores citando responsabilidade social como principal razão, e 37% afirmando que doam para “sentir-se bem”. Os critérios de escolha das OSCs incluíram a causa apoiada (30%), a confiança na liderança (19%) e a transparência (12%). Para quem não doou em 2023, os principais motivos incluíram a falta de dinheiro (33%), a ausência de um pedido direto de doação (22%) e a desconfiança sobre o uso adequado dos recursos (20%).


Falem mal mas falem de mim? Nesse caso não funciona...


A partir desses e de outros dados da pesquisa, podemos tecer algumas reflexões: por que as OSCs seguem com um índice de confiança tão baixo? A Pesquisa Doação Brasil, do IDIS - Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social, já indicava, em 2015, que apenas 26% dos respondentes consideram as OSCs confiáveis, índice que aumentou para 41% na pesquisa de 2020, mas voltou a cair para 30% na de 2022. Sem querer dar respostas definitivas, podemos imaginar que a mídia tem um papel relevante nessa disseminação da falta de confiança, ao colocar todas as organizações no mesmo “balaio” em notícias de casos de corrupção, desvio de verbas, assédio, entre tantos outros (alguns exemplos abaixo somente para ilustrar). Ao utilizar apenas “ONGs” ou “OSCs” nas manchetes, no plural e deixando para citar nominalmente as organizações acusadas somente no texto, a mensagem subliminar passada pode ser entendida como “todas as ONGs” estão envolvidas.


Um segundo ponto é que raramente falamos sobre doação em nosso círculo familiar ou de amigos, e, como a pesquisa apontou, boa parte das doações é feita a partir da rede de relacionamentos. É comum indicarmos para alguém quando passamos numa ótima médica, encontramos um pedreiro ponta firme ou nos encantamos com a nova cafeteria do bairro.


Mas raramente indicamos a OSC para a qual doamos. Ou, mesmo se mencionamos para alguém, é difícil falarmos com a mesma ênfase que usamos quando dizemos “você precisa conhecer esse lugar!” ou “você vai amar essa doutora!” (estou neste momento me revelando um fracasso como captadora ao ser “madrinha fundraiser” da Soul Bilíngue, da qual sou mentora voluntária, mas fica a dica para fazer uma doação para a campanha deles).


Considerando agora o dado da ausência de um pedido direto de doação (indicado por 22% como a causa para não doar), cabe às OSCs fazerem também o dever de casa e avaliar se estão fazendo pedidos claros de doação, sendo transparentes em relação à utilização dos recursos e mostrando os resultados de seu trabalho, tanto em seu site como em mídias sociais ou relatórios. Reavaliar as abordagens para pedidos de doação é importante também, visto que o relatório aponta que o telemarketing é visto como o meio que mais incomoda para 76% dos respondentes (eu teria respondido o mesmo se tivesse sido entrevistada). Por outro lado, apenas 3% indicaram o e-mail como o meio mais incômodo, e 1% os influenciadores digitais. Pedidos de doação feito por amigos e familiares ou durante eventos/jantar/festa/bingo não foram citados como sendo meios incômodos. Novamente, o poder dos relacionamentos pessoais faz a diferença aqui. Vamos explorar mais nossas redes para aumentar a confiança nas OSCs e, consequentemente, o número de doações?

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Exemplos de escândalos com ONGS na mídia:






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Produzido pela equipe do Movimento por uma Cultura de Doação 2024

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