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Precisamos remodelar a arquitetura de financiamento para a sociedade civil, fortalecendo uma cultura política de doação

  • culturadedoar
  • há 12 minutos
  • 3 min de leitura

Jonathas Azevedo*, diretor executivo da Rede Comuá, integrante do Movimento por uma Cultura de Doação é a Voz dessa semana.


Foto: Unsplash/Omar Flores
Foto: Unsplash/Omar Flores


O atual contexto geopolítico nos traz uma realidade que, embora não seja nova ou desconhecida pela sociedade civil, impõe a necessidade de pensar soluções para ampliar os recursos destinados a comunidades e grupos especialmente atingidos pela onda conservadora que se espalha pelo Norte Global, tendo como expoentes os Estados Unidos e países europeus.


A arquitetura de financiamento a organizações e movimentos da sociedade civil precisa ser redesenhada com brevidade, e o fortalecimento da cultura de doação no país é um caminho fundamental para pensar sistemas emergentes e alternativos ao sistema atual de financiamento e ajuda internacional.


O escasseamento de doações para esses grupos vem acompanhado, muitas vezes, da redução do espaço cívico, trazendo riscos às democracias. O fortalecimento de organizações e movimentos da sociedade civil é, cada vez mais, fundamental para a garantia de direitos e a incidência sobre os contextos políticos, econômicos, sociais e ambientais.


O apoio menos para projetos e mais para o desenvolvimento e sustentabilidade dessas organizações é uma fronteira relativamente nova para a filantropia mainstream brasileira (empresarial e familiar), que não é predominantemente doadora para a sociedade civil e para os grupos aqui mencionados. O grantmaking voltado à promoção de justiça socioambiental, que busca apoiar grupos e comunidades no acesso a direitos e na redução das desigualdades, para contribuir de fato para a transformação socioambiental, precisa ser acionado com intencionalidade cada vez mais presente. De modo a fomentar uma sociedade civil fortalecida, plural e sustentável, como preconiza a Diretriz 4 do MCD.


É experimentando novas formas de doar que será possível radicalizar a cultura de doação de modo menos colonial, apoiando de fato o fortalecimento da sociedade civil em suas lutas, e enfrentar esse ciclo de redução do financiamento internacional trazido pelo contexto conservador que vem ecoando na geopolítica mundial.


Isso é possível a partir de uma filantropia mais colaborativa, em que diferentes atores e atrizes do campo atuem em arranjos para ampliar doações e usar os recursos de modo mais assertivo. Membros da Rede Comuá – que reúne organizações da filantropia independente doadora para a sociedade civil – têm construído parcerias com atores da filantropia mainstream para ampliar os recursos destinados a grupos e organizações da sociedade civil mais atingidos pelas desigualdades econômicas, sociais e ambientais.


É um caminho que tem se mostrado promissor e que, embora ainda seja acionado pontualmente, desponta como uma solução importante e inovadora para fazer os recursos chegarem a grupos politicamente minorizados, como pontuei em uma reflexão para o ISP em Debate.


As organizações da Comuá trabalham de maneira próxima e em parceria com grupos e movimentos da sociedade civil, ouvindo suas reais necessidades e buscando canalizar recursos, compreendendo que são eles que detém o conhecimento do território e a proposição de soluções para transformar realidades. Isso garante eficiência e assertividade na destinação dos recursos, a partir de relações de confiança.


Esses modos de doar, trazidos pelas práticas da filantropia comunitária, contribuem para a construção de uma cultura de doação política e comprometida, de fato, com a transformação social.


Num mundo em que o multilateralismo vem sendo minado e atacado por forças conservadoras, e em que os países avançam em rumos menos colaborativos e mais protecionistas/nacionalistas, os reflexos dos cortes de doações internacionais já são duramente sentidos pela sociedade civil. No Brasil, os recursos para apoiar lutas por direitos são provenientes, predominantemente, de doações internacionais. Justamente onde esses cortes incidem.


O apoio a iniciativas engajadas com o fortalecimento de uma cultura de doação comprometida com a luta por direitos e com a autonomia de atores e atrizes da sociedade civil mostra-se, assim, cada vez mais estratégico nesse sentido.


A filantropia brasileira encontra, à sua frente, uma oportunidade, na verdade um chamado, a ser mais inovadora e ousada. A traçar novos caminhos para garantia de resiliência e futuros.


*Jonathas Azevedo é diretor executivo da Rede Comuá. Formado em Relações Internacionais, especialista em Ajuda Humanitária e do Desenvolvimento Internacional e mestre em Inovação Social e Empreendedorismo pela London School of Economics and Political Science. Ativista por uma filantropia comprometida com a justiça socioambiental e com a defesa de direitos.

 
 
 
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Produzido pela equipe do Movimento por uma Cultura de Doação 2024

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